Histórias de Antigamente: a misteriosa prima Ivone

Por: Ana Maria

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Já disse, em outras histórias, que minha tia Clara tinha suas reservas de mistérios. Numa bela tarde de domingo ela disse para mim e para meus primos e primas que em breve uma sobrinha dela, em segundo grau, viria nos visitar. Ela tinha 09 anos de idade. Chamava-se Ivone. De acordo com minha tia Clara era uma menina doce e educadíssima. Filha única. “Conto com vocês para acolhermos minha sobrinha Ivone com muita educação e carinho.” Minha prima Lili: “Tia Clara…será que ela gosta de estudar?” E tia Clara: “Certamente, Lili. Vamos aguardar e todos poderão chegar a suas próprias conclusões.”

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A notícia da chegada de uma prima caiu como uma bomba para nós! A Lili dizia que ela deveria ser uma menina feia, loira aguada e gorducha de bochechas vermelhas! Os meninos eram menos maldosos! Uma outra prima minha imaginava que a tal da Ivone deveria ser uma ruiva cheia de pintinhas e com tiques nervosos. Uma outra imaginava que a prima Ivone deveria ser burra e, desta forma, cada um imaginava uma Ivone cheia de defeitos e horrível. Um ciúme absurdo pairava em todas as cabeças infantis. Desde que o mundo é mundo, sabemos, o ciúme é amigo da desconfiança e filho da maldade. Minha prima Lili não se cabia de tantos ciúmes da prima que chegaria. “Envenenava” em todos os sentidos a prima por conhecer. Chegou até a inventar que ela era mentirosa e maldosa! Enfim, chegou o dia em que fomos esperá-la na velha estação de trem de minha cidade.

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Acontece, que justo no dia da chegada de minha prima Ivone, o trem estava atrasado. A impaciência começou a tomar conta de todos! Inclusive, de minha tia Clara. E o melhor remédio era comer aqueles doces que se vendiam antigamente nas estações de trem. E logo de cara deu-se o que facilmente se poderia esperar…a Lili derrubou um copo inteiro de groselha em seu vestido. Ficou todo manchado, úmido e “melecado”. Logo depois um primo meu derrubou sorvete em sua camiseta. Enfim…a minha tia Clara ficou quase enlouquecida! Afinal…ela queria que seus sobrinhos estivessem na mais perfeita ordem ao serem apresentados para uma sobrinha (cá entre nós…mais distante) que estava para chegar.

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De repente o trem foi anunciado e chegou! Para espanto geral. E o primeiro encontro foi um verdadeiro desastre! De longe já identificamos a tal de minha prima Ivone. Magrela ao extremo, morena pálida e parecia toda perdida! Ela era do tipo enjoada, chata e cheia do “não me toques”. A antipatia foi imediata! De ambos os lados! Minha tia Clara, coitada, tentava equilibrar tudo! Ivoninha, como era chamada, tinha uma voz estridente e quase não falava! Fomos todos para a casa de minha tia Clara naquela tarde. Ivone não quis comer quase nada e olhava tudo com cara de nojo! Notava-se que deveria ser uma filha única muito mimada. Eu e meus primos nos olhávamos com ironia e raiva! A menina era, sim, uma chata que conseguiu ganhar de Lili!

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Durante a semana soubemos por tia Clara, que não conseguia esconder sua decepção, que Ivone quase não comia. E ainda por cima ficava no quarto agarrada a uma boneca de porcelana. Passou-se uma semana e não houve nada que pudéssemos fazer para interagir com aquela prima mimada e chata.

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Finalmente…chegou o dia da partida de minha tia prima Ivone! Todos se alegraram de forma quase indisfarçada. E, alegremente, fomos levá-la à estação de trem. Ivone não abria a boca e, como sempre, se mostrava distante e superior! Lili, do nada, disse para tia Clara que estava com vontade de tomar groselha. E claro que tia Clara atendeu Lili. O trem chegou. Quando Ivone estava para subir no trem Lili “acidentalmente” jogou o copo cheio de groselha em cima de Ivoninha! A menina reagiu pela primeira vez: “Não acredito Lili…sua desastrada! E agora? Meu vestido bordado está todo melecado! Como vou viajar assim? Mas não havia mais remédio…Ivoninha teve que viajar “melecada” e manchada de groselha para nossa satisfação e a disfarçada alegria de minha tia Clara! Nunca vi adeuses tão felizes.

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Uma semana depois da partida da prima mimada, individualmente, recebemos dela uma lata de bombons importados. Isso em minha época era o luxo dos luxos! E, ainda, com um cartão super delicado agradecendo nossa companhia! Foi um desastre! Até Lili chorou de arrependimento. Enfim: nunca conseguimos entender aquela prima estranha.

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Hoje vou tomar sorvete de groselha com minha tia Clara e, provavelmente, vamos lembrar um pouco de minha prima Ivone.

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