Histórias de Antigamente: Jujuzão, o bonachão

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Por: Ana Maria

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Minha tia Clara, sempre vou repetir, disfarçava…mas era, como toda tia amorosa, muito ciumenta. Seu reino, que dividia alegremente com os sobrinhos, deveria ser somente dela. Acontece que em minha cidade quase não havia diversões. Aliás, antigamente não havia quase nada para fazer.

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E num belo dia, de outono, anunciaram no rádio que um tal de Jujuzão iria fazer um programa infantil aos domingos à tarde! Lembro-me da carranca de minha tia Clara. “Quero só ver o tal do programa! Acho que vai ser um verdadeiro lixo! Aposto que o tal do Jujuzão vai ficar contando piadinhas idiotas! Conheço esse tipo de gente que adora enganar as crianças!” Disse, cheia de ciúmes, minha tia Clara. “Ainda bem que vocês gostam de ouvir as minhas histórias aos domingos à tarde!”

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Eu e meus primos ficamos calados. Mas o que aconteceu? Na escola todo mundo falava do tal Jujuzão. E que ele contava histórias de aventuras! Histórias elefantásticas! Casas voadoras mal assombradas! Cobras que se transformavam em vampiros! Crianças com poderes acima do normal e outras histórias muito diferentes daquelas a que estávamos acostumados!

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O pior é que eu e meus primos começamos a nos sentir fora de tudo! Como faltar às sessões de histórias de tia Clara? Ela ficaria mortalmente ferida. E, claro, a Lili teve uma ideia.

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Cada tarde, aos domingos, um de nós “ficaríamos doentes” para ouvir o programa do Jujuzão. E depois veríamos o que se poderia fazer. O pior vocês não sabem: o programa do Jujuzão era sensacional! As histórias dele eram diferentes! Cheias de personagens que eram bandidos! Roubavam! E quase nunca tinham aquele fim moral com os famosos castigos. Os bandidos se davam bem! Eram considerados espertalhões! E isso, naquele tempo, era uma novidade. Todos os bandidos ou mal comportados, nas histórias de tia Clara, eram castigados de alguma maneira.preocupacao

Tudo ia muito bem. Mas num belo dia tia Clara percebeu que todos os domingos um primo “ficava doente”. E muito esperta começou a nos cutucar. A cumplicidade infantil, às vezes, funciona. E a coitada de minha tia Clara não tinha argumentos. Enquanto isso o programa do Jujuzão estourava! Todas as crianças da cidade, para grande alívio dos pais, grudavam nos rádios, em verdadeiros grupos, para ouvir as famosas histórias! Minha tia Clara ficou sabendo do sucesso! Indignada propôs: “Vamos ouvir juntos o tal do programa desse famoso Jujuzão? Estou louca para saber de onde ele tira as tais histórias e outras coisas mais!”1

E o domingo chegou. Todos nós reunidos ouvindo uma história do famoso Jujuzão. Lembro-me como se fosse hoje da história daquele dia. Dois meninos inventaram uma nave espacial e foram para a Lua (lembro a todos que naquele tempo o homem ainda não tinha ido para lá). Chegando na Lua encontraram seres encantados e malvados. Aranhas voadoras, morcegos de chifres, peixes que comiam tudo o que viam pela frente, cobras com asas que engoliam pedras, enfim, seres horríveis! Todos nós disfarçávamos nossas emoções para não ferir a tia Clara!

1Mas a Lili: “Nossa! Isto que é história de aventura! Ai como eu queria que o Jujuzão fosse meu tio!” Preciso dizer que minha tia Clara ficou roxa de raiva? Mas nada comentou! No final da história do Jujuzão um dos amigos consegue escapar dos seres da Lua e deixa o outro por lá! Volta feliz da vida por ter escapado de tudo!

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A tia Clara não se aguentou: “Isso é história boa? Como? Então o amigo deixa o outro ficar na Lua junto daqueles animais horríveis? Não pode ser. Esse contador de histórias deveria ser mandado embora desta cidade! Dando maus exemplos para as crianças! E você, hein, Lili? Tem coragem de gostar desse tipo de histórias? Nossa! Que horror! O mundo está completamente virado! O que será do futuro de vocês? E deste mundo? Tenho medo só de pensar!”

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Depois de duas semanas aconteceu o que ninguém esperava: o tal do Jujuzão era um ladrão procurado pela polícia de uma outra cidade. Roubava velhinhas, dava golpes baratos em velhinhos e outras coisas mais. Foi um verdadeiro escândalo! A cidade inteira comentava. Ninguém queria acreditar que aquele contador de histórias era um ladrão procurado pela polícia! Foi uma das maiores glórias de minha tia Clara!  No domingo, logo depois do escândalo, ela desforrou tudo: “E aí crianças? Eu não disse que as histórias do Jujuzão não prestavam? Ele só dava péssimos exemplos! Claro! Ele mesmo era um! E você Lili? Ainda quer esse homem para tio? Quer levar um lanchinho para ele na cadeia? Ou prefere levar um bolo recheado? Um homem que enganava velhinhos e velhinhas! Todos nós nos olhamos! De cabeça baixa e quietos…

1Hoje vou passear com a tia Clara. Ela cismou que quer tomar groselha e comer papos de anjo. Será que vou encontrar tais guloseimas em algum lugar? E ai de mim se não conseguir!

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